terça-feira, 28 de outubro de 2008



meu clitóris uivou para a lua
e ela respondeu com um
demônio me estrupando nos sonhos.

me livrei graças ao farfalhar

de um anjo/uma alma/de meu pai
foi quando minhas pálpebras se abriram

e a contração das pupilas me indicaram
a salvação raiando por trás dos prédios.

o corpo inteiro coçando como se tivesse pragas
atravessou o corredor extenso -

almodóvar agora é almofada de ilustrar revista Casa&Decoração.
rio pensando nas unhas, no cheiro do ninho, na coriza dos lençóis
depois nem sei o que senti remando as ondas irritantes
ora em cima ora embaixo
o barulho dos piratas
rompendo
minha concentração
- o dinheiro já não dá. se me roubarem morrerei faminta.
arquitetei planos, emboscadas
coisas inteligentíssimas
e no fim,
soluçei feito criança pensando no meu pai
acenando da janela,
e me pedindo para comer pêssegos.





eu acho que a tua camisa de forças combina tão bem com meu vestido de florezinhas.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

quando esperava um sinal se abrir reparei que as motos iam com tanta fúria que pareciam necessitar do ar cortado para se alimentarem de alguma força invisível assim como o ar cortado sangrava em meu corpo e me fazia mal o ar cortado parecia alimentar as máquinas.

o coração motoboy.

coração, você doou seu sangue
pelo homem sem asas
você, coração
pulsou pela última vez
engasgado
no sal
você, coração
que nada tinha haver

com a queda
doou o seu sangue em alto mar.

você, coração

despertou hoje no jornal da tarde
a sensação única senão
coração, ser.
você, coração
que moveu gente

como eu
a querer ver brilhar
seu último pulso vital
refletido no sol do litoral.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

eu não pertenço a canto algum –
os plásticos fizeram de seu coração:
plástico e só constroem superfícies;
tudo é convencional e falta o inexplicável.
noutro lado, os engajados estudaram muito e
cospem fúria
e ódio. um cuspe oscilante e ácido
bem no rosto cuidadosamente maquiado dessas pessoas doentes.
os engajados me odeiam muito, porque tenho dó e não ataco.
os plástico odeiam também; sou um órgão vivo e feio (não tenho pele para me esconder, nem um adorno para suavizar)
só posso ver da calçada dois grupos de gente se mordendo,
se traindo, se partindo.
eu vejo da calçada e há tanta guerra
um pedaço de tijolo quase me acerta pelo corpo
meus olhos respiram.
quando me aproximei tentando amizade gritaram forte
- uhhhhhhh! e me jogaram todo tipo de diferença que podiam encontrar
(ou inventar.)
fiquei na calçada só olhando a arrebentação de pus descendo a rua
olhei o céu - de que planeta eu vim? eu não pertenço.
eu não pertenço.

ah tô rodando sem parar - eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando
. . . .
eu cansei da poesia egocêntrica eu cansei da poesia sentimental eu cansei da poesia chorosa eu cansei da poesia em primeira pessoa eu cansei dessa facilidade que magoa eu cansei dessa barriga oca eu cansei dessa gente sofrendo eu não sei o que fazer com essa coisa me enlouquecendo eu não sei o que fazer com tanta gente já morta.


(vi na uol que o ibope das novelas da globo caiu feio) – acho que desistiram de sonhar com a mocinha o mocinho e o vilão. eles querem ver sangue, melhor ver o esqueleto pedindo comida no semáforo, melhor ver corpo pedindo dinheiro pro álcool, melhor ver tragédia, estupro e miséria. a boqueira a doença a pobreza a corrupção o joão-sem-nome a morte pela fome a morte pela intoxicação. “criancinha levando prego no olho” até o sensacionalismo soa mais real.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ele não tinha pernas - era sem-pernas e seus olhos eram azuis como um pedaço de mar selvagem, os cabelos queimados cor de terra e gosto de sol - se deslocava no mundo graças à uma tábua feia e podre com rodinhas. eu o vi quando entrou no metrô deslizando com as mãos imundas impulsionadas pelo o escarro de outros no concreto, tinha as unhas maltratadas, doentes e escuras. a cabeça baixa pela constante humilhação de datas infindáveis - pediu desculpas ao homem que entrou e que quase o derrubou de sua pernas improvisadas. tinha uma tatuagem no pescoço; era um escorpião. contemplei o contraste do escorpião com uma inocência quase perdida (mas existente) nos confins de seus olhos tão, mas, tão azuis. era uma inocência triste, uma inocência melancólica de desgosto como uma criança afogada em alto-mar, as algas velando o corpo, perdido e branco nas ondas frias. ele deslizou a rampa do terminal rodoviário e eu o perdi para sempre (minhas pernas perfeitas não eram mais rápidas que suas rodinhas): e foi então que fiquei só, completamente só com meus pensamentos e uma coisa no coração indizível.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

quando nasci, rasguei o padrão e cuspi na estética
fiz um milhão de inimigos

- que injetaram sangue
em minhas veias,
esqueci as formas das coisas
e simplesmente vivi a força

de cada uma delas.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

amanhã eu acordo antes do sol
amanhã eu choro a incompreensão das pombas
amanhã eu rio a marginália cintilante no lado esquerdo do peito -
enquanto todos estão meio palmo do concreto triste e feio.

quando minhas veias se libertam de minhas fendas
quando eu sangro películas arteriais, estou provando que estou viva
pulsante
viva
pulsante
vivae
pulsante - viva
(que ainda não virei metaltijoloasfaltoalumínio
sem tempo de doer
chorar
rir e
escorrer.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

lay down on the bed
hopping that sleep will come
sooner than later -
what about cuts in the shape of a star?
wrists turning head . . .
this is all in my head;
my body does not breath throught wires.
just empty spaces dressed as people.
(wake up kid you're sleepin' throught the best part -
i've lost his voice.)
jd, please, come to me again
tell me; that cuts will only make me bleed blood
pills will only make me sick.
cuts will make me feel real when nothing else does.
vidro nervoso, como uma apologética sinfonia
saltando fitas. você não precisa deles - são veneno.
hideyourpillsinsideabox.
(wake up kid, before you.. lose your heart. -
i can hear you a little now, your voice touchs deep.)
suffocating, suffocatting,
i'm suffocating
how my body feel is transparent;
but i have so much things to look forward.
o que há de bom na diluição de coisas
que não podemos tocar?


respira .


i can't

sábado, 24 de maio de 2008

se lembra em '06 quando eu era a personificação viva da discórdia e fomos para uma festa de gala onde bebi até meu sangue dilatar em álcool puro e meus olhos injetarem tudo o que eu sentia? se lembra de como eu vomitei até minhas tripas no salão inteiro e todos os senhores e todas aquelas madames e todas aquelas garotas típicas me olharam como se eu fosse um verme ou sei lá o que se passava na mente deles,
eu, maracatu atômico só queria vomitar e, foram tantos puxões rápidos que me derrubaram em desmaios, e quando eu acordava bebia mais ou queria dançar majestosamente como a stripper que sonhava em ser. e você lembra, você lembra,
que eu te dizia "quero fazer amor aqui, nessa mesa cheia de flores" e você.. você se lembra? você me disse "vou cuidar de você, deita a cabeça. tomar essa água. fecha os olhos, eu estou aqui". e eu não queria deixar de ser porra-loca para ser cativada ou pelo menos não esperava e não dava o braço a torcer "não, eu quero fazer amor. eu quero acabar com esse mundo" e você disse "esquece isso, eu te amo." balbuciei até meu último sentido se apagar "eu sou chata nojenta insuportável, eu sou a desgraça do mundo. por que você me ama? eu vomitei essa mesa inteira, as flores todas. por que você não tem nojo de mim? eu sei que você tem nojo de mim. não pode ser diferente com você. todos têm. cedo ou tarde cê vai me largar, vai enjoar."
e quando eu menos esperava travou-se o gesto inexplicável em mim, o gesto perplexo, o gesto inacreditável, o gesto infinito. quando eu menos esperava senti seus lábios, seus doces lábios, seus lábios, seus lábios, tocando meus lábios - enxutos de desgraça, frustração e vômito. minha boca nojenta, meu escárnio, minha dor. você me beijava, consumia minhas tripas, meu suco gástrico em saliva. eu vi toda paz do mundo em seus olhos - meu muro de berlim havia desmoronado. e nada mais precisou ser dito.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

no dia em que,
eu puder escrever o som que as baleias fazem no oceano
no dia em que,
eu puder desenhar a sensação de ser um ser pulsante entre trilhões de seres rígidos
no dia em que,
eu puder escrever a oscilação de uma música aquática, o choro do vento ao mar
no dia em que,
eu puder desenhar a intensidade absurda de amar alguém que nunca chegou aos olhos


serei finalmente feliz, completamente completa e,
morrerei no extâse, sentindo
esse lindo veneno consumindo entre minhas veias.

sábado, 3 de maio de 2008

o primeiro era de pedra,
o segundo, uma miragem...
o terceiro, ainda não sei.

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