quinta-feira, 25 de setembro de 2008

quando esperava um sinal se abrir reparei que as motos iam com tanta fúria que pareciam necessitar do ar cortado para se alimentarem de alguma força invisível assim como o ar cortado sangrava em meu corpo e me fazia mal o ar cortado parecia alimentar as máquinas.

o coração motoboy.

coração, você doou seu sangue
pelo homem sem asas
você, coração
pulsou pela última vez
engasgado
no sal
você, coração
que nada tinha haver

com a queda
doou o seu sangue em alto mar.

você, coração

despertou hoje no jornal da tarde
a sensação única senão
coração, ser.
você, coração
que moveu gente

como eu
a querer ver brilhar
seu último pulso vital
refletido no sol do litoral.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

eu não pertenço a canto algum –
os plásticos fizeram de seu coração:
plástico e só constroem superfícies;
tudo é convencional e falta o inexplicável.
noutro lado, os engajados estudaram muito e
cospem fúria
e ódio. um cuspe oscilante e ácido
bem no rosto cuidadosamente maquiado dessas pessoas doentes.
os engajados me odeiam muito, porque tenho dó e não ataco.
os plástico odeiam também; sou um órgão vivo e feio (não tenho pele para me esconder, nem um adorno para suavizar)
só posso ver da calçada dois grupos de gente se mordendo,
se traindo, se partindo.
eu vejo da calçada e há tanta guerra
um pedaço de tijolo quase me acerta pelo corpo
meus olhos respiram.
quando me aproximei tentando amizade gritaram forte
- uhhhhhhh! e me jogaram todo tipo de diferença que podiam encontrar
(ou inventar.)
fiquei na calçada só olhando a arrebentação de pus descendo a rua
olhei o céu - de que planeta eu vim? eu não pertenço.
eu não pertenço.

ah tô rodando sem parar - eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando eu tô rodando
. . . .
eu cansei da poesia egocêntrica eu cansei da poesia sentimental eu cansei da poesia chorosa eu cansei da poesia em primeira pessoa eu cansei dessa facilidade que magoa eu cansei dessa barriga oca eu cansei dessa gente sofrendo eu não sei o que fazer com essa coisa me enlouquecendo eu não sei o que fazer com tanta gente já morta.


(vi na uol que o ibope das novelas da globo caiu feio) – acho que desistiram de sonhar com a mocinha o mocinho e o vilão. eles querem ver sangue, melhor ver o esqueleto pedindo comida no semáforo, melhor ver corpo pedindo dinheiro pro álcool, melhor ver tragédia, estupro e miséria. a boqueira a doença a pobreza a corrupção o joão-sem-nome a morte pela fome a morte pela intoxicação. “criancinha levando prego no olho” até o sensacionalismo soa mais real.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ele não tinha pernas - era sem-pernas e seus olhos eram azuis como um pedaço de mar selvagem, os cabelos queimados cor de terra e gosto de sol - se deslocava no mundo graças à uma tábua feia e podre com rodinhas. eu o vi quando entrou no metrô deslizando com as mãos imundas impulsionadas pelo o escarro de outros no concreto, tinha as unhas maltratadas, doentes e escuras. a cabeça baixa pela constante humilhação de datas infindáveis - pediu desculpas ao homem que entrou e que quase o derrubou de sua pernas improvisadas. tinha uma tatuagem no pescoço; era um escorpião. contemplei o contraste do escorpião com uma inocência quase perdida (mas existente) nos confins de seus olhos tão, mas, tão azuis. era uma inocência triste, uma inocência melancólica de desgosto como uma criança afogada em alto-mar, as algas velando o corpo, perdido e branco nas ondas frias. ele deslizou a rampa do terminal rodoviário e eu o perdi para sempre (minhas pernas perfeitas não eram mais rápidas que suas rodinhas): e foi então que fiquei só, completamente só com meus pensamentos e uma coisa no coração indizível.

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