terça-feira, 16 de setembro de 2008
ele não tinha pernas - era sem-pernas e seus olhos eram azuis como um pedaço de mar selvagem, os cabelos queimados cor de terra e gosto de sol - se deslocava no mundo graças à uma tábua feia e podre com rodinhas. eu o vi quando entrou no metrô deslizando com as mãos imundas impulsionadas pelo o escarro de outros no concreto, tinha as unhas maltratadas, doentes e escuras. a cabeça baixa pela constante humilhação de datas infindáveis - pediu desculpas ao homem que entrou e que quase o derrubou de sua pernas improvisadas. tinha uma tatuagem no pescoço; era um escorpião. contemplei o contraste do escorpião com uma inocência quase perdida (mas existente) nos confins de seus olhos tão, mas, tão azuis. era uma inocência triste, uma inocência melancólica de desgosto como uma criança afogada em alto-mar, as algas velando o corpo, perdido e branco nas ondas frias. ele deslizou a rampa do terminal rodoviário e eu o perdi para sempre (minhas pernas perfeitas não eram mais rápidas que suas rodinhas): e foi então que fiquei só, completamente só com meus pensamentos e uma coisa no coração indizível.
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Um comentário:
um dia vc mata alguem
com essa sensibilidade sua
espero que seja eu essa pessoa
vou morrer feliz
:)
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